quarta-feira, 11 de abril de 2007

Você não pode faltar na segunda, muito menos na sexta!

Ontem, finalmente, os líderes partidários da Câmara dos Deputados declararam abertamente que não trabalharão às segundas-feiras sob alegação de que a produção é insuficiente. Entretanto, há muito, já não o faziam. Arlindo Chinaglia, líder da Câmara desde fevereiro de 2007, tentou mostrar serviço ao planejar votações de segunda a quinta, mas sua “boa intenção” foi vencida pela tradição parasitária de trabalho somente de terça à quinta. Enquanto isso, projetos e votações se acumulam e atrasam ainda mais a marcha lenta que o país segue.

É óbvio que a sociedade reprova e se indigna com posturas como esta. Uma enquete realizada hoje pela Folha Online revelou que 96% dos que votaram, representando 11342 votos, foram contrários à iniciativa da Câmara dos Deputados de não realizarem votações às segundas-feiras. Aposto que esta temática foi amplamente comentada nas mesas de bar e entre o “passa a salada” familiar. Mas, me pergunto se a mesma massa que simplesmente comentou e, provavelmente, xingou políticos refletiu acerca da sua responsabilidade direta com o fato, visto que ela elegeu democraticamente os ratos.

Na vida real as coisas são diferentes. Se você faltasse o trabalho segunda-feira e dissesse ao seu patrão que não “bateu o ponto” porque considera a sua produção insuficiente neste dia da semana devido à preguiça ou ressaca, provavelmente você seria chamado de louco e teria o dia cortado. Certamente, se além da segunda, você faltasse a sexta, com a desculpa de começo do fim de semana, você seria prontamente demitido. No entanto, isso não acontece na Câmara dos Deputados, onde os salários são bem altos, as férias longas, as mordomias e regalias muitas...

segunda-feira, 9 de abril de 2007

Mother Night....


O romance Mother Night do norte-americano Kurt Vonnegut tem como personagem principal Howard W. Campbell Jr: “um americano por nascimento, um nazista por reputação e um despatriado por inclinação”. Trata-se de um diário, onde a personagem reflete suas culpas e questiona suas identidades, antes, durante e depois da II Guerra Mundial. O autor mescla fatos históricos, personagens reais e fictícias, prendendo o leitor até o último segundo.
Em 1923, com 11 anos, o americano Howard mudou-se com seus pais para a Alemanha e, posteriormente, se transformou num razoável escritor de peças, em alemão. Casou-se com Helga, atriz e filha do chefe de polícia de Berlim, e juntos conquistaram a simpatia da elite alemã, ou seja, a elite nazista; O casal não os amava nem odiava.
Em 1938, na iminência da guerra, Howard foi recrutado como espião americano com a promessa de ter o seu pescoço salvo, caso os aliados ganhassem, ou ter sua carreira de escritor esquecida pela guerra. Sua missão era fingir ser nazista e ganhar a confiança deles, para poder passar informações aos EUA. Assim Howard fez. Por sua habilidade e criatividade, ganhou um programa de rádio em inglês responsável por transmitir ao mundo aliado o anti-semitismo e a ideologia nazifascista, além de tentar culpar os judeus pela guerra. Ele incorporou o seu papel perfeitamente, que nem sabia se era nazista ou não.
O livro se processa com divagações a cerca das experiências do “nazianque” na guerra e seu fim solitário num sótão. A guerra levou sua esposa, sua carreira e sua identidade. Sua consciência pede por um julgamento, uma suposta aprovação social, nasce a vontade de revelar o lado de dentro do espelho, assim o peso da liberdade/impunidade assusta-o. Horward pede a vizinhos judeus para ser entregue à justiça israelita para ser julgado por seus crimes de guerra e quando consegue a prova de sua inocência, o testemunho de quem o recrutou, se suicida por seus crimes contra ele mesmo: “I think that tonight is the night I will hang Howard W. Campbell, Jr, for crimes against himself.”
Este livro me levou a refletir sobre o papel de cada um num sistema complexo, numa rede de influências, de interesses, de ideologias. A guerra consiste num bom exemplo, mas prefiro deter-me à análise dos meios de comunicação de massa no âmbito da influência inter e alter ego. A mídia detém uma força capaz de reger seus povos e criar monstros em suas próprias estruturas. Não acredito na possível interpretação de uma personagem 24 horas, a qual, em minha opinião, Campbell usa como argumento para sua inocência com a causa anti-semita, mas acha fundamentos para culpar-se por erros na sua vida particular. Então, ouso questionar: Qual o poder de uma ideologia sobre quem as difunde? Não consigo dissociar o propagandista nazifascista do americano civil bonzinho, não vejo ética profissional em propagar o que não se acredita sob o discurso “é para o bem da nação”, portanto julgo-o culpado por crimes de guerra, contra a humanidade, já que palavras constroem mundos e têm o peso de armas, que além de ferir, matam.

Atenção! Um simples blog pode dizer mais do que parece.